fonte: Folha de SP

por Claudia Collucci, repórter especializada em Saúde

Em entrevista à Folha, o médico Drauzio Varella toca numa questão pela qual me interesso cada vez mais e que diz respeito a todos nós: a importância do acolhimento do paciente quando não há mais cura.

“Curar é ótimo, tudo é festa. Mas quando encontro alguém que me diz: ‘o senhor cuidou do meu avô, ele veio a falecer, mas foi tão bem, tão tranquilo’, recebo como um elogio até maior, porque não tem festa. É simplesmente a morte, e nós temos que lidar com ela e aceitá-la. Essa é a essência da medicina, aliviar o sofrimento humano. Para isso é que existe a profissão”, diz Varella.

Infelizmente, a nossa medicina está muito distante dessa realidade. Para quem tem recursos, a cura é buscada a qualquer preço. Quando a família opta por interromper tratamentos inúteis em situações onde a cura não será mais possível, priorizando o conforto do doente, ainda encontra muita resistência. 

Quem vive ou já viveu em família situações envolvendo doenças incuráveis ou terminalidade sabe muito bem do estou falando. Muitas vezes, é um processo solitário, de muita dor e angústia. Na prática, na vida real, cuidados paliativos ainda são para muito poucos.

Por coincidência, recebi da jornalista Chris Delboni, que também é educadora e coach, um emocionante texto que trata exatamente dessa questão. Ela conta um pouco sobre o drama vivido pelo pai, Humberto Delboni Filho, médico e professor da Escola Paulista de Medicina. Em 1961, ele foi um dos fundadores do que hoje é o Laboratório Dasa. A seguir, o seu relato. 

“Curar algumas vezes, aliviar muitas vezes, consolar sempre’’. Há muitas variações da tradução desta frase atribuída a Hipócrates, considerado o “pai da medicina”. O importante, porém, é o seu significado ético para a medicina e o compromisso do médico com os doentes.

Escuto essas poucas palavras desde que me entendo por gente, da boca de meu pai, uma lenda da medicina em São Paulo, um homem, que sempre consolou cada paciente que passou pelas suas mãos grandes e suaves. Tirava sangue como ninguém.

Mas hoje sofre com um câncer terminal, há dois anos lutando, quase não tem mais veias. Cura não tem mais; alívio também não. As dores são lancinantes. Cadê o médico para trazer consolo, conforto? Inconformados por não conseguirem curar, nem aliviar, se esquecem do poder de simples palavras de conforto e consolo.

Claro, o desenvolvimento da tecnologia nos traz muitas curas inestimáveis de uma quantidade inumerável de doenças que matavam pela falta de conhecimento da época.

Mas não podemos nos esquecer que a tecnologia não cura o incurável, só maltrata, tantas vezes, com a tentativa de tratamentos intratáveis, prolongando assim a dor e o sofrimento, e não a vida.

Continuam tentando quimioterapia, radioterapia, sem resultado, só mais dor. Para quê? Muitas vezes para não se sentirem incapazes e vencíveis.

Há mais de 30 anos nos Estados Unidos, como correspondente em Washington e formadora de uma geração de jovens jornalistas na Flórida, sou da época em que a Varig existia e os brasileiros brincavam: “o melhor médico é a Varig”, com voos diretos para os hospitais no Brasil.

Esse conceito não mudou. Até hoje, quase todos os que conheço, e podem, vêm se tratar aqui. Principalmente pelo carinho que recebem, pela humanidade do tratamento médico no Brasil.

Mas isso pode estar mudando, e não deveria.

Quando não tem mais cura, nem alívio, os médicos deveriam aceitar e parar tratamentos intratáveis, trazendo sim aceitação e fé ao paciente, não esperança.

As pessoas confundem fé com religião e fé com esperança. Mas fé, muitas vezes, nada tem a ver com religião, e muito menos com esperança. O que adianta a esperança de sobreviver alguns dias a mais se sua missão se completou? Já não há mais necessidade de sofrimento. Cada minuto a mais de sobrevida passa a ser desumano, uma sobrevida causada pelo homem, não mais determinada pelo nosso destino. É o velho ditado, “brincando de Deus”. E para quem? 

Falo muito sobre a metáfora dos faróis de trânsito na vida em meus processos de coach.

O semáforo da vida:

Sinal verde é para irmos em frente.

Amarelo: avalie se é melhor seguir ou esperar o verde de novo.

Vermelho: pare!

Quando cruzamos os sinais vermelhos da vida, quase sempre acabamos com sérios problemas. Espere. Quando estiver verde de novo, siga em frente com segurança. O sinal da vida também sempre acaba abrindo.

E no momento em que não há mais nem o alívio de um tratamento, o médico deveria lembrar do seu compromisso, e aceitar o sinal vermelho para que o paciente consiga seguir com a certeza de que a vida não para aqui. Ao invés de dar esperança, deveria trazer a fé de que logo o farol ficará verde de novo. Talvez em outra vida, outra esfera. Mas mesmo não acreditando, ao menos tendo a certeza de que esta vida está concluída, e, em muitos casos, com glória. Por que não celebrar?

O papel do médico é evitar a crueldade dentro do conceito da “medicina hipocrática”, que de hipócrita não tinha nada, ao contrário de tantos médicos modernos.

Os verdadeiros anjos, muitas vezes, são os enfermeiros que vivem diariamente a angústia do paciente e de fato consolam não só o corpo, mas o espirito.

Encerro aqui com um pedido que o currículo de medicina seja reavaliado para incluir uma nova matéria em todas as turmas que se iniciam: fé e humanidade nos tratamentos.

Obrigada Dr. Bezerra de Menezes, um médico e grande mentor espiritual da medicina, por todos seus ensinamentos, curas, alívios e consolos!

E enorme gratidão ao Dr. Humberto Delboni Filho, um homem exemplar e um pai ao qual eu devo a minha vida e tudo que sou, principalmente os meus valores. 

Não acredito em eutanásia, pois cada minuto da vida é uma oportunidade de aprendizado, onde tratamos da cura da alma, que esta, sim, sempre tem cura. Mas condeno a sobrevida, permitida pelo desenvolvimento da medicina, uma prática cruel e desumana. Precisamos encontrar um equilíbrio o quanto antes.

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