Para paliativistas, é crucial haver honestidade com paciente grave

fonte: Folha de SP

O consenso entre profissionais de saúde é que nos últimos meses de vida de um paciente, esgotadas as alternativas de tratamento, o melhor é garantir que ele receba cuidados paliativos para amenizar a dor e melhorar a qualidade de vida.

O problema é a substituição do tratamento médico convencional, que inclui os cuidados paliativos, por supostas alternativas, modalidades sem nenhuma comprovação mensurável de cura da doença ou de aumento da sobrevida.

Foi mais ou menos essa a discussão que surgiu após a morte do jornalista e apresentador de TV Marcelo Rezende, no último sábado (16), em decorrência de um câncer de pâncreas em estágio avançado. Ele estava com 65 anos.

Nos últimos meses, Marcelo Rezende publicou periodicamente em suas redes sociais vídeos em que dizia estar buscando a cura por meio da fé. O fato de ele ter abandonado o tratamento convencional acabou fomentando a discussão sobre sua saúde.

“É uma questão ética. Qualquer paciente tem o direito de aceitar ou recusar qualquer tipo de tratamento. É um princípio básico”, diz a médica paliativista Maria Goretti Maciel, diretora do Instituto Paliar, em São Paulo.

Mesmo assim, diz a especialista, o papel do médico é tentar esclarecer o panorama do tratamento e fazer um exercício de empatia, de modo a entrar no universo do paciente e tentar, sob o ponto de vista dele, ajudar a fazer as melhores escolhas.

“O que não pode acontecer é culpar um homem pela própria morte, como se ele tivesse morrido porque não quis se tratar. Ele morreu em decorrência de uma doença grave, a chance de um tratamento curativo era muito pequena. Talvez o tratamento postergasse a morte, talvez ele tenha escolhido viver bem ou talvez ele tivesse um grande medo. A gente não pode julgar”, diz Goretti Maciel.

Para o geriatra André Filipe dos Santos, da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, é fundamental deixar claro para o paciente por quais procedimentos ele passará e para quê.

“Existe a modalidade de quimioterapia paliativa, para melhorar os sintomas do câncer e a qualidade de vida, e não para curar. Curiosamente, 70% dos pacientes que recebem esse tratamento acham que estão curados.

FILOSOFIA

Segundo o filósofo e professor Rafael Nogueira, é comum haver uma espécie de despreparo, ou “falta de treino filosófico” quando o assunto é a morte.

“Muitas vezes a mensagem é dura e a pessoa não aceita, já que aquilo que a medicina promete é muito pouco. Aí ela sai em busca de tratamentos que sejam mais afins à sua teimosia”, diz.

Segundo Nogueira, há ao menos outras duas maneiras mais maduras de lidar com o tema. Uma é esgotar os recursos oferecidos pela medicina e pela ciência “e só aí partir para a pseudomedicina/tratamentos alternativos”, como chás e cirurgias espirituais.

E o jeito mais “cristão e comum” é seguir o tratamento convencional e, ao mesmo tempo rezar e pedir orações para os amigos familiares, por exemplo. “Se a medicina não funcionar, Deus é chamado para prestar um auxílio”.

TRATAMENTO LETAL

Um estudo recentemente no periódico científico “Journal of the National Cancer Institute” reuniu dados de pessoas que seguiram tratamentos alternativos no lugar da medicina convencional e mostrou que elas têm uma chance de morrer 150% maior, em média, considerando os quatro tipos mais comuns de câncer: de mama, de próstata, colorretal e de pulmão.

O estudo teve repercussão global, diz o autor Skyler Johnson, da Universidade Yale, que comandou a iniciativa. Segundo ela, o interesse no tema é um indício da falta de dados confiáveis para a avaliação da eficácia de terapias alternativas (por não ter sido possível uma segmentação no estudo, acabaram todas entrando no mesmo balaio).

“A questão para pacientes com cânceres curáveis foi respondida: eles não devem escolher a medicina alternativa. Infelizmente muitos continuarão escolhendo métodos alternativos e mais pesquisa é necessária para entender por que essa decisão é tomada”, disse Johnson à Folha.

“Apesar de as terapias alternativas muitas vezes aparentarem ser a única saída –como no caso de um câncer de pâncreas, após o uso das convencionais–, elas são um tiro no escuro, uma roleta russa”, diz Mauro Zukim, do Americas Oncologia.

O oncologista lembra do caso da fosfoetanolamina, que foi em pílulas no interior paulista para supostamente tratar o câncer. Após a realização de estudos ficou claro que ela “não servia pra nada”.

A aposta de Zukim e de outros oncologistas é que mesmo no caso do câncer de pâncreas (cuja fração de pacientes vivos após cinco anos é de cerca de 8%) é possível apostar as fichas em tratamentos recentes e naqueles que a ciência ainda está testando.

Crianças que superam câncer têm doenças crônicas na vida adulta, diz estudo

fonte: O Globo

Crianças que sobrevivem a algum tipo de câncer têm, em média, o dobro de doenças crônicas aos 45 anos, em comparação com o restante da população, segundo um estudo do Hospital de Pesquisa de Crianças St. Jude, nos Estados Unidos, publicado na revista médica “Lancet”.

O estudo analisou a saúde de 5.522 pacientes diagnosticados com câncer antes dos 18 anos, entre 1961 e 2004. Foram incluídas 168 condições de saúde no estudo, e índices de adoecimento foram comparados com um grupo de controle de 272 pessoas nunca diagnosticadas com câncer. No total, 3.010 sobreviventes e 272 controles foram clinicamente avaliados para todas as condições médicas, exceto perda de audição, glaucoma, catarata e retinopatia — que foram autorreportadas no grupo de controle.

Radiação e quimioterapia

Aos 50 anos, 99,9% dos sobreviventes haviam desenvolvido alguma doença crônica severa. Problemas cardiovasculares, endócrinos e musculoesqueléticos estavam entre as principais doenças e 37% desses pacientes foram diagnosticados com um segundo câncer por volta dos 50 anos. Em geral, sobreviventes de cânceres hematológicos experimentaram problemas cardiovasculares e cânceres secundários na idade adulta, enquanto os sobreviventes de câncer do sistema nervoso central apresentaram maior probabilidade de sofrer perda auditiva ou neuropatias após o tratamento.

Os autores observam que a maioria dos participantes do estudo foram diagnosticados entre 1980 e 1994, e que atualmente as terapias modernas contra o câncer provavelmente serão mais direcionadas, com doses mais baixas de radiação e quimioterapia, o que significa que as crianças diagnosticadas hoje podem sofrer menos com doenças crônicas.

Justiça Federal proíbe uso do medicamento Leuginase no tratamento de câncer infantil

fonte: Conselho Federal de Medicina

A Justiça Federal proibiu a compra, em toda a rede nacional do SUS, do medicamento chinês Leuginase – usado no tratamento de Leucemia Linfoide Aguda (LLA) e alvo de fortes críticas da comunidade médica por não ter a eficácia comprovada nem registro junto à Anvisa. A decisão é liminar e foi assinada pelo juiz federal de Brasília Rolando Valcir Spanholo no domingo (24). Cabe recurso.

Em junho, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Médica Brasileira (AMB) publicaram nota pública na qual manifestaram apoio à decisão do Ministério Público Federal (MPF), que havia recomendado ao Ministério da Saúde (MS) a suspensão da compra e distribuição do medicamento, na rede pública. A substância passou a ser utilizada neste ano contra o câncer que acomete principalmente crianças e adolescentes, após decisão do MS que permitiu a importação em caráter emergencial do produto.

A medicação havia sido importada com dispensa de licitação. O argumento do governo era de economia aos cofres públicos – o custo individual cairia de US$ 173 para US$ 38. No processo, porém, o Ministério da Saúde não conseguiu provar que o remédio já havia sido testado em humano.

Exames clínicos apontaram ainda que ele tem 40% de impurezas, enquanto o utilizado anteriormente pelo órgão tinha índice de 0,5%. Para a Justiça, 4 mil pessoas, sendo 80% crianças e adolescentes, podiam estar com as vidas em risco.

Alerta do CFM – A decisão atende pedido do Ministério Público Federal, que havia pedido o recolhimento de todos os lotes de Leuginase distribuídos em hospitais públicos e pedia que o governo voltasse a comprar a asparaginase fabricada no Japão, usado até o ano passado. Em abril, o Conselho Federal havia solicitado ao procurador-geral da República à época, Rodrigo Janot, que avaliasse junto ao Ministério da Saúde as denúncias sobre a falta de segurança e eficácia do remédio chinês. O presidente do CFM, Carlos Vital, defendeu a avaliação rigorosa da qualidade do medicamento. “Se um remédio não está devidamente atestado, ele não pode ser utilizado na prática médica”, declarou Vital. Confira aqui reportagem exibida pelo Fantástico sobre a denúncia do CFM.

Pela decisão, a União deve fazer em até 45 dias um processo para compra emergencial para adquirir um remédio “que, possuindo o princípio ativo L-Asparaginase, ostente evidência científica sobre sua eficácia e segurança”. Em seguida, o governo federal deve recolher e armazenar todos os lotes do medicamento chinês ainda não usados. Além disso, deve monitorar todos os pacientes que usaram a Leuginase alvo da ação.

Como funciona a medicação – O medicamento tem como princípio ativo a asparaginase, usado para conter o avanço da leucemia. Ele tira um “alimento” essencial para as células malignas, que chama asparagina. Sem esse “alimento”, a célula morre. O remédio não é fabricado no Brasil.

O país importava, desde a década de 1970, medicamentos produzidos por laboratórios dos Estados Unidos e da Alemanha. Segundo especialistas, o nível de eficácia deles é de até 90%. Os remédios são distribuídos aos hospitais por meio do Programa de Prevenção e Controle do Câncer do Ministério da Saúde.

O que gerou a polêmica – Mas, neste ano, o Ministério da Saúde comprou outro medicamento: a asparaginase chinesa, do laboratório Beijing SL Pharmaceutical, representado pela empresa uruguaia Xetley S.A. O órgão não fez licitação, valendo-se da lei que permite a dispensa em caso de emergência ou calamidade pública. Na ocasião, foi feita uma pesquisa de preços entre quatro laboratórios estrangeiros e escolhido o produto chinês, que ofereceu o menor preço. A importação do novo remédio despertou preocupação entre especialistas.

Festa do mês para pacientes do Aquário Carioca

Nesta segunda-feira, dia 25, ocorreu a festa do mês para os pacientes tratados no Aquário Carioca do Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Durante boa parte da manhã, os pacientes cantaram, conversaram e comeram salgadinhos, docinhos e bolo.

O evento mensal é uma parceria da Curumim Associação de Combate ao Câncer Infantil com a Servier do Brasil.

Abertas inscrições para VIII Encontro de Cuidados Paliativos em Pediatria que ocorre em novembro

O VIII Encontro de Cuidados Paliativos em Pediatria será realizado nos dias 24 e 25 de novembro, sexta-feira e sábado, respectivamente, no auditório da Casa de Saúde São José, no Humaitá.

As inscrições estão abertas e podem ser feitas pelo site do evento, com o pagamento da taxa de inscrição podendo ser feito através de cartão de crédito (em até 18x), boleto bancário, transferência eletrônica ou depósito em conta.

VALORES DA TAXA DE INSCRIÇÃO

INSCREVA-SE

Para os que fizerem o pagamento através de transferência eletrônica ou depósito em conta é necessário o envio do comprovante de pagamento, assim como os estudantes devem enviar o comprovante de escolaridade, para contato@curumimcancerinfantil.org.br.

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SAIBA COMO CHEGAR

Casa de Saúde São José – Rua Macedo Sobrinho, 21, Humaitá.

Curumim participa de grupo de trabalho de cuidados paliativos do 4º Fórum de Oncologia Pediátrica do Rio de Janeiro

Teve início nesta segunda-feira, dia 18, a 4ª edição do Fórum de Oncologia Pediátrica do Rio de Janeiro. Uma das atividades deste primeiro dia foi o grupo de trabalho de cuidados paliativos, que reuniu cerca de 40 pessoas no auditório da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (SOPERJ) e teve coordenação da psicóloga Érica Quintans e das diretoras da Curumim Associação de Combate ao Câncer Infantil: Juliana Mattos, Renata Barros, Thaís Nery Ramos e Juliana Lyra. O convidado especial foi Daniel Forte, presidente da Associação Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP).

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Curumim participa de programa na rádio Contemporânea abordando a campanha setembro dourado

Nesta segunda-feira, dia 18, a presidente da Curumim Associação de Combate ao Câncer Infantil, Dra. Renata Barros, e a tesoureira, Thaís Nery Ramos, participaram do programa Elas por Elas na rádio Contemporânea (990 AM), apresentado por Eliana Ovalle e Sylvia Jane Crivella.

Durante os 90 minutos de entrevista, as diretoras da Curumim falaram, junto com outras convidadas, sobre a campanha setembro dourado que alerta para a importância do diagnóstico precoce de câncer infanto-juvenil.

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Boa informação é o melhor remédio contra movimentos antivacina

fonte: O Globo

Os movimentos antivacinação estão se espalhando mundo afora, e isso é um perigo não só para as crianças mas também para a população em geral, em especial indivíduos mais vulneráveis a infecções. Felizmente, porém, também há uma “vacina” contra o avanço destes movimentos: a boa informação. E é em defesa de esforços neste sentido que trabalha o médico israelense Ron Dagan. Um dos mais respeitados especialistas em pneumonias e na epidemiologia de doenças evitáveis com vacinas do mundo, Dagan participa esta semana, no Rio, do XX Congresso Brasileiro de Infectologia (Infecto2017) e faz um alerta: mesmo países com longa tradição pró-vacinação, como o Brasil, não estão livres do crescimento destes movimentos.

Como o senhor vê o avanço dos movimentos antivacinação pelo mundo?

Os movimentos antivacinação estão espalhados por todo o mundo, mas é preciso entender que nem todos os pais que hesitam em vacinar seus filhos são de fato contra vacinas. Eles captam ideias dos movimentos antivacinação, ouvem falar, e têm dúvidas. Assim, é um importante papel seja das autoridades, associações ou dos profissionais de saúde ser capaz de entender como são as vacinas, como funcionam, e explicar isso para população.

É uma questão de educação então?

Não, muitos dos pais hesitantes são pessoas com bom nível educacional, mas que procuram na internet e muitas vezes não obtêm a informação certa ou não têm a oportunidade de uma conversa individual com um profissional de saúde sobre o assunto. Hoje as pessoas querem mais informação. Elas não acreditam mais cegamente na medicina ou nos sistemas de saúde. Temos uma nova geração acostumada a ter muita informação, mas o problema é que em meio a isso há muita desinformação. E quando você tem muita informação, você acaba confuso. Nosso papel como profissionais de saúde, portanto, não é só dar mais informações, mas pegar o que as pessoas acham que sabem e mostrar a elas o que está certo ou errado.

Seria este esforço para passar boa informação para o público um tipo de “vacina” contra a disseminação da antivacinação?

Definitivamente é uma medida de prevenção. No Brasil, por exemplo, muitas pessoas têm um nível educacional baixo, mas sabem da importância da vacinação. Mas acredite em mim: isso vai mudar. Haverá cada vez mais e mais pessoas com melhor nível educacional que serão atraídas por estes movimentos. Então a hora é agora de dar mais informação, conversar com as pessoas, treinar os profissionais de saúde para explicar o funcionamento das vacinas e a importância da vacinação de forma que quando estas novas gerações de brasileiros chegarem com suas dúvidas e hesitações, elas terão as respostas que querem e precisam.

Diagnóstico de câncer ainda é gargalo para pacientes do SUS

fonte: Folha de SP

Livian Soares, 32, suava à noite, tinha febre, dores constantes de cabeça e, a cada dia, perdia mais peso. Os médicos em Uruaçu, no interior de Goiás, diziam que era anemia.

Demorou um ano para ela ser atendida por um especialista em doenças do sangue no SUS e outros 90 dias para realizar os exames e chegar ao diagnóstico –linfoma de Hodgkin, tipo raro de câncer.

Em 2014, o nódulo ocupava sua axila, mas, na época do diagnóstico tardio, já tinha se espalhado por garganta, tórax e estômago. Estava no estágio quatro, considerado avançado pelos médicos.

O tratamento deveria começar imediatamente, mas a primeira quimioterapia foi marcada para três meses depois, em Goiânia, a cinco horas de distância da sua casa.

A espera de Livian mostra que a demora entre a suspeita inicial e a chegada a um diagnóstico é o principal gargalo para obter o tratamento adequado no serviço público de saúde em todo o país.

Em vigor desde 2014, a chamada Lei dos Sessenta Dias determina que todos os pacientes com câncer devem ser tratados na rede pública até dois meses após o diagnóstico. No entanto, quatro em cada dez casos esperam mais do que o prazo legal para receber atendimento, de acordo com dados do Siscan (Sistema de Informação do Câncer) do Ministério da Saúde.

“A lei pressupõe que o paciente consegue chegar imediatamente a um hospital especializado em câncer, mas, antes disso, alguns passam por mais de oito consultas”, diz Merula Steagall, presidente da Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia).

No Estado de São Paulo, o prazo de 60 dias costuma ser respeitado, diz Paulo Hoff, diretor do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), que atende 10% dos casos de câncer do SUS estadual. “Somos referência, exceção no Brasil. Mas, às vezes, ficamos sobrecarregados porque pacientes de Estados vizinhos vêm procurar tratamento aqui”, explica. “É desumano uma pessoa viajar por horas para achar um hospital que a atenda.”

Essa dificuldade foi enfrentada pela estudante Letícia Fernandes, que viajava duas horas e meia de segunda a sábado de Mogi das Cruzes, onde vive, até a capital paulista para tratar o linfoma no pescoço, descoberto aos 18 anos.

Não foi sua única peregrinação no SUS. Ela esperou um ano para descobrir qual doença tinha, gastou R$ 950 em uma consulta particular e as sessões de radioterapia só foram marcadas quatro meses depois do pedido médico, quando esse tratamento não teria mais efeito.

A doença reapareceu duas vezes. Na primeira, fez um transplante de medula óssea, que demorou mais de quatro meses para ser realizado. Na segunda, o serviço público já não oferecia nenhuma opção que funcionasse para ela.

Um remédio importado custou R$ 600 mil e foi pago pela União, após briga judicial de mais um ano. A jovem, hoje com 23 anos, define o processo: ansiedade, medo, desespero e desânimo.

MAIS CARO

Em São Paulo, 55% dos casos são diagnosticados nos estágios três e quatro, mais avançados e difíceis de tratar. No país, são 60%. Essa demora, consequência da lentidão, pode custar até 19 vezes mais aos cofres públicos.

Para apressar o diagnóstico, uma nova lei está em tramitação na Câmara dos Deputados, estipulando que todas as consultas e exames em casos suspeitos de câncer sejam realizado em até 30 dias.

Minas Gerais foi o primeiro Estado a criar legislação. A regulamentação é aguardada para os próximos meses. O Estado terá de criar 12 novos centros especializados em diagnóstico oncológico.

O tratamento de um câncer de intestino no SUS, em seu estágio inicial, custa cerca de R$ 4 mil. Nas fases críticas, o valor chega a R$ 76 mil.

“No câncer, o tempo corre contra. Em casos de leucemia, por exemplo, é preciso internar o paciente em poucos dias, mas monitoramos demora de até cinco ou seis meses” diz Luciana Holtz, do Instituto Oncoguia.

Para Fernando Maluf, chefe da oncologia do Hospital BP Mirante, em São Paulo e fundador do Instituto Vencer o Câncer, a espera tem ainda um fator emocional. “Para quem tem uma doença, esses dias parecem eternos.”

Em Brasilândia de Minas, a 500 km de Belo Horizonte, Andreia Alves, 39, vive na pele a tortura. Em março, a professora ouviu da médica: “Como você ainda está viva?”.

Assim como Livian, ela foi diagnosticada com linfoma de Hodgkin. O resultado da biópsia veio no início de julho e, após cinco meses de busca por exames em outra cidade, Andreia ainda aguarda pelo início do tratamento.

Ela precisava iniciar as sessões de quimioterapia e radioterapia imediatamente, mas, prestes a completar dois meses desde que descobriu a doença, quando liga para a Secretaria de Saúde de Minas Gerais só ouve que não há vagas.

A espera é para um tratamento em Belo Horizonte ou Uberaba, a sete horas de onde mora. Para ela, no entanto, o pior é não saber quando.

“No início era apenas um caroço, agora já são 12. A médica disse que posso ter morte cerebral a qualquer momento, porque eles estão na minha jugular”, diz Andreia.

A falta de transparência para saber o início do tratamento é apontada também por Luciana Holtz.

“O paciente se sente perdido, não há um site que mostre quando o exame foi agendado, quando é a próxima consulta, quando começa a quimioterapia. Tem que esperar por uma ligação da central de regulação da fila.”

Pediatras lançam recomendações de exercício físico em crianças e bebês

fonte: Folha de SP

Em vez de tablets, TVs e jogos eletrônicos, atividades que estimulem os bebês a serem “fisicamente ativos”, como alcançar, puxar e segurar objetos, e assim mover os membros do corpo.

A recomendação faz parte de um guia inédito da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), e que visa estimular a prática de atividades físicas por crianças e adolescentes –incluindo bebês.

O documento é voltado a pais, escolas e pediatras. Ao todo, cerca de 28 mil especialistas devem receber o manual, que contém diretrizes como tempo e tipo de atividades recomendados de acordo com as diferentes faixas etárias.

Para os pediatras, mesmo bebês que ainda não começaram a se arrastar ou engatinhar devem ser estimulados a serem “fisicamente ativos”. Neste caso, a dica é incentivar os pequenos a tentar alcançar, puxar ou empurrar objetos, por exemplo, de forma a mover a cabeça, corpo e membros.

Já para as crianças que já conseguem andar sozinhas, o manual recomenda ao menos 180 minutos de atividades que podem ser divididas durante o dia [veja abaixo].

E existe um limite máximo de tempo para essas atividades? “Claro que não pode exagerar. A criança tem que ter o horário de descanso dela. Não pode forçar, é algo mais lúdico”, afirma o pediatra Ricardo do Rêgo Barros, que atua na área de medicina do esporte na SBP e coordenou a elaboração do documento.

Se por um lado o manual recomenda determinados períodos de atividades para os pequenos, o documento é taxativo quanto ao tempo recomendado em frente às telas de tablets, celulares e TVs para crianças até dois anos: zero. Acima dessa idade, o máximo é de até duas horas. “O que queremos acabar é com a inatividade. Temos hoje crianças e adolescentes muito ligados às telas. Queremos estimular uma vida mais saudável”, diz o coordenador.

OUTRAS IDADES

O tempo mínimo indicado para atividades varia nas outras faixas etárias. Para crianças de três a cinco anos, a recomendação é de pelo menos 180 minutos de atividades de qualquer intensidade ao longo do dia, em especial aquelas que desenvolvam a coordenação motora. A partir dessa faixa etária, atividades físicas estruturadas, como natação, danças, lutas, podem ser incluídas, de acordo com o guia.

Segundo Barros, a falta de uma recomendação anterior para algumas atividades, como natação, ocorre devido ao baixo número de evidências de benefícios significativos à saúde.

“O que sabemos hoje em dia é que os benefícios da natação para bebês [menores de três anos] não são tão significativos. Se quiser como sociabilização, uma brincadeira, não tem problema. Mas não como indicação médica”, afirma.

Já para crianças de 6 anos até adolescentes até 19 anos, o manual recomenda pelo menos 60 minutos de atividade física “moderada a vigorosa” –como pedalar, nadar, correr, saltar ou atividades que tenham, no mínimo, a intensidade de uma caminhada, informa o documento.

E musculação? De acordo com Barros, a possibilidade não é excluída, mas é necessário supervisão personalizada, e com equipamentos adequados.

“O que sugerimos é que nos meninos seja depois do estirão do crescimento, mais ou menos após 14 e 15 anos, e nas meninas, depois da menstruação”, diz. Segundo o documento, a necessidade de supervisão ocorre pois a prática de exercícios de intensidade “moderada a vigorosa” pode contribuir para aumentar os níveis circulantes do hormônio do crescimento e o fator estimulante desse hormônio. Se não houver suporte, informa, exercícios feitos de forma extenuante podem reduzir o ganho de altura. O acompanhamento também é importante para evitar lesões.

De acordo com a SBP, a ideia de elaborar um documento com recomendações de atividades para as diferentes faixas etárias ocorre diante do aumento da obesidade no país -hoje, 18,9% dos adultos são obesos. Entre as crianças de cinco a nove anos, esse índice é de 14,3%, segundo dados de 2009 da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), do IBGE.

Veja as recomendações

CRIANÇAS DE 0 A 2 ANOS

>Aqueles que ainda não começaram a se arrastar/engatinhar devem ser encorajados a serem fisicamente ativos alcançando, segurando, puxando e empurrando objetos, movendo a cabeça, corpo e membros durante as rotinas diárias e durante atividades supervisionadas no chão

>Já crianças que conseguem andar sozinhas devem ser fisicamente ativas todos os dias durante pelo menos 180 minutos, em atividades que podem ser fracionadas durante o dia e ocorrerem em ambientes fechados ou ao ar livre, como ficar de pé, movendo-se, rolando e brincando, além de atividades mais energéticas como saltar, pular e correr

>Tempo recomendado de tela (TV, tablet, celular, jogos eletrônicos): zero

CRIANÇAS DE 3 A 5 ANOS

>Crianças dessa faixa etária devem acumular pelo menos 180 minutos de atividade física de qualquer intensidade distribuída ao longo do dia, incluindo atividades que desenvolvam a coordenação motora.

>Brincadeiras ativas, andar de bicicleta, atividades na água, jogos de perseguir e jogos com bola são práticas recomendadas

>A partir dos três anos de idade atividades físicas estruturadas, como natação, danças, lutas, esportes coletivos, entre outras, também podem ser paulatinamente incluídas

>Tempo recomendado de tela (TV, tablet, celular, jogos eletrônicos): máximo de 2 horas por dia

CRIANÇAS E ADOLESCENTES DE 6 A 19 ANOS

>Crianças e adolescentes dessa faixa etária devem acumular pelo menos 60 minutos diários de atividades físicas de intensidade moderada a vigorosa, tais como pedalar, nadar, brincar em um playground, correr, saltar e outras atividades que tenham, no mínimo, a intensidade de uma caminhada

> Atividades de intensidade vigorosa, incluindo aquelas que são capazes de fortalecer músculos e ossos, devem ser realizadas em, pelo menos, três dias por semana. Ex. brincadeiras que incluam saltos, atividades de empurrar, puxar e apoiando/suportando o peso corporal

>Atividades de flexibilidade envolvendo os principais movimentos articulares devem ser realizadas pelo menos três vezes por semana

>Tempo recomendado de tela: máximo de 2 horas por dia (exceto para tarefas escolares)