fonte: O Globo

O estado do Rio de Janeiro, onde um bebê de oito meses morreu de sarampo em janeiro, atingiu a meta de cobertura de vacinação para crianças de um a cinco anos em 2019, mas teve o pior resultado para adultos de 20 a 29 anos. A imunização nessa faixa etária é importante para evitar a transmissão aos bebês mais novos, que não podem ser vacinados contra o sarampo, mas têm risco maior de morrer em decorrência da doença.

Também é nesse grupo que está grande parte dos pais de recém-nascidos. A expectativa do Ministério da Saúde é que o número de casos cresça no Rio.

“Considerando o percentual de confirmação e o número de casos em investigação nos estados de Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Pará, além do número de pessoas suscetíveis residentes nos municípios com surto, espera-se um incremento de casos nas próximas semanas nesses estados”, diz trecho de boletim epidemiológico divulgado neste mês pela pasta.

A maior parte dos 18.203 casos confirmados em 2019 no Brasil se deu entre os 20 e 29 anos, que concentraram 31,4% dos registros, seguido dos bebês com menos de um ano e das crianças entre um e quatro anos. Mas como há mais jovens adultos do que bebês, a incidência entre quem tem menos de um ano é bem maior.

Segundo boletim do Ministério da Saúde, os bebês e as crianças de até quatro anos são as mais suscetíveis a complicações e morte por sarampo. Dos 15 óbitos registrados em 2019, seis foram de crianças com menos de um ano e duas entre um e quatro anos. Entre os jovens de 20 a 29 anos, foram duas mortes, e o restante ocorreu nas faixas etárias acima disso.

Em 2019, a meta era vacinar 95% das crianças de um a cinco anos. No Brasil, o índice foi 95,7%. No Rio, ficou até acima: 101,7%, ou seja, mais doses foram aplicadas do que o previsto inicialmente. Outros 17 estados também atingiram a meta, enquanto nove não conseguiram.

Já entre os jovens de 20 a 29 anos, o Ministério da Saúde estimou que haveria 9,4 milhões de pessoas não imunizadas contra o sarampo, mas apenas 1,9 milhão recebeu a primeira dose, ou seja, um de cada cinco. Não há dados de quantos receberam a segunda dose.

Três estados tiveram uma busca superior à estimativa — Sergipe, Amapá e Paraíba —, mas a maioria teve resultados muito baixos, classificados de pífios pelo Ministério da saúde. Entre eles, o Rio foi de desempenho pior: da estimativa de 1.173.708 jovens entre 20 e 29 anos não vacinados, apenas 56.137 receberam a primeira dose, ou seja, um de cada 20.

— De 20 a 29, o resultado foi pífio, porque fizemos uma estimativa de vacinação de 9,4 milhões de doses, e temos registro de apenas 1,8 milhão — afirmou o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson de Oliveira, na última segunda-feira.

Mandetta criticou o Rio

Na segunda-feira, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, criticou o estado do Rio de Janeiro, onde os casos de sarampo estavam aumentando em relação a 2019. No ano passado, São Paulo foi de longe o estado com mais casos confirmados de sarampo: 16.090 dos 18.203 em todo o Brasil. Apenas quatro estados — Acre, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins — não tiveram nenhum registo da doença.

Em 2019, o Rio estava em terceiro na lista, com 333 confirmações, distribuídas por 18 municípios, atrás ainda do Paraná. Em 2020, foram 202 casos confirmados no Brasil até 25 de janeiro, dos quais 77 em São Paulo e 73 no Rio de Janeiro. Os dados diferem da Secretaria de Saúde fluminense, mas, segundo o Ministério da Saúde, isso se deve à defasagem da alimentação do sistema pelos estados.

— A gente está com circulação do vírus. Alguns estados (foram) super alertados. O Rio de Janeiro foi muito, muito, muito alertado sobre a situação de vacina deles, sobre o trânsito de pessoas da Dutra, a ponte aérea Rio-São Paulo intensa. Uma cidade complexa do ponto de vista sanitário, do ponto de vista de áreas de exclusão que nós sabíamos que tinha alta probabilidade. Se vocês virem o número de casos, o Rio de Janeiro neste ano agora (tem) praticamente o mesmo número de casos de São Paulo, só que São Paulo com viés de baixa — disse Mandetta na segunda-feira.

O ministro da Saúde ainda acrescentou:

— E o Rio de Janeiro, com esses números, subindo, porque não tinha e não fez, não atenderam as campanhas no momento em que deveriam ter atendido.

Em 2019, houve duas campanhas de vacinação, uma focada nas crianças entre um e cinco anos, e outra voltada aos jovens de 20 a 29 anos.

Nova dose

Além disso, em razão do reaparecimento do sarampo, passou a ser recomendado que bebês de seis meses também fossem imunizados, sem prejuízo de receberem novamente a dose quando completassem um ano. Nesse caso, a cobertura vacinal foi de 84%, segundo informado pelo Ministério da Saúde na última segunda-feira, mas sem fornecer dados detalhados por estado

Em 2020, foi lançada na última segunda-feira uma campanha de vacinação, que irá até 13 de março, voltada a pessoas de cinco a 19 anos.  Serão 3,9 milhões de doses da vacina tríplice viral, que protege do sampo, da caxumba e da rubéola, e também serão usadas na imunização das crianças entre seis meses e 11 meses e 29 dias. De 3 a 31 de agosto, haverá outra voltada para pessoas de 30 a 59 anos.

Além disso, em boletim com informações sobre casos de sarampo em 2019, o Ministério da Saúde defendeu uma nova campanha para todas as pessoas entre 20 e 29 anos entre junho e agosto, “de forma indiscriminada (independentemente do antecedente de vacinação ou doença) em todo o País”.

O objetivo é ter uma mobilização maior para aumentar a vacinação nessa faixa etária, tendo em vista que a campanha de 2019, baseada apenas em estimativas de não vacinados, teve resultado pífio.

“Considerando ainda a dinâmica de contatos entre as diferentes faixas etárias, atingir elevada cobertura vacinal na população de 20 a 29 anos tem grande potencial para evitar casos nas crianças, em especial nas menores de 6 meses de idade, grupo este com contraindicação à vacinação”, diz trecho do boletim. O documento destaca ainda que é justamente nessa faixa etária que se concentram os pais de recém-nascidos.

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