fonte: Folha de SP

O ministro da Saúde da França, Olivier Véran, pediu que as pessoas com febre e suspeita de infecção pelo novo coronavírus evitem tomar anti-inflamatórios como o ibuprofeno para controlar seus sintomas. “Em caso de febre, tomem paracetamol. Os anti-inflamatórios poderiam ser um fator de agravação da infecção”, declarou Véran.

As declarações do ministro francês ecoam uma pesquisa que acaba de ser publicada na revista médica Lancet, uma das mais respeitadas do mundo. Um trio de pesquisadores liderado por Michael Roth, do Hospital da Universidade de Basileia, na Suíça, analisou os dados já divulgados sobre mortes e casos graves da covid-19, como é conhecida a doença causada pelo novo vírus.

Já está claro que pessoas com problemas cardiovasculares (em especial hipertensão) e diabetes correm risco aumentado de ter problemas mais sérios com a moléstia, e eles propõem que parte da razão tem a ver com remédios que funcionam de modo semelhante ao ibuprofeno.

Ocorre que pessoas com doenças cardiovasculares e diabetes muitas vezes utilizam medicamentos conhecidos como inibidores de ECA (enzima conversora da angiotensina). Essa molécula, presente de modo natural nas células humanas, é importante nos processos que acabam levando ao aumento da pressão do sangue –portanto, faz sentido que hipertensos e diabéticos usem remédios que barrem a ação da ECA.

O problema é que os inibidores de ECA, bem como outros remédios com efeito similar sobre o sangue, acabam levando à ativação mais intensa de outra molécula parecida, a ECA2. E, conforme mostrou um estudo recente na revista especializada Science, a ECA2 é o receptor, ou seja, a “fechadura química”, usada pelo novo coronavírus para invadir as células de suas vítimas. O ibuprofeno também é capaz de aumentar a presença de ECA2 nas células.

Ou seja, o uso de tais remédios multiplicaria as “fechaduras” nas quais o vírus se encaixa, potencializando sua ação. Isso explicaria o porquê de hipertensos, pessoas com doenças cardíacas e diabéticos estariam sofrendo mais: os medicamentos tomados por esses pacientes dariam um empurrão extra à ação do coronavírus.

Na pesquisa da Lancet, Roth e seus colegas apontam que há outros tipos de remédios para essas doenças preexistentes, os quais, pelo que se sabe, não teriam o mesmo efeito facilitador para o coronavírus. É importante lembrar que a análise feita pelos pesquisadores envolveu apenas correlações – eles não chegaram a testar o efeito nocivo dos medicamentos citados analisando células humanas ou cobaias em laboratório, por exemplo.

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