fonte: Folha de SP

As férias escolares são um convite para a diversão em família. Mas, com as crianças em casa, é sempre necessário pensar em segurança, uma vez que elas, assim como idosos, estão mais suscetíveis a sofrer um acidente.

No período de setembro de 2017 a agosto deste ano, o SUS (Sistema Unificado de Saúde) registrou mais de 708 mil internações em todo o país por acidentes ocorridos em casa. Desse total, 29% dos pacientes eram idosos (pessoas a partir de 60 anos), e 8,5%, crianças com até nove anos.

O SUS classifica acidente como uma das causas externas de traumatismo, diferentemente de doenças infecciosas ou neoplasias (tumores). São acidentes domésticos: afogamentos, intoxicações, queimaduras, choques e quedas.

Para o ortopedista Marco Paulo Otani, do Centro de Qualidade de Vida, os principais fatores de acidente doméstico estão no próprio ambiente. Desse modo, a primeira preocupação é a de adequar aquele espaço para a criança ou para o idoso, que são os chamados cuidados passivos.

Lourdes Foschini, 64, é avó de Maria Luiza, 7 anos, e Pietra, 6. A mais velha passa todas as manhãs com a avó desde que era pequena. Foschini conta que Malu é uma menina tranquila e nunca se machucou em casa –até porque nunca faltaram medidas de proteção.

“Quando morava em um sobrado, mantinha um portão na escada para que ela não subisse. Quando me mudei para o prédio, a primeira coisa que coloquei foi a rede de proteção. Sempre tive muito cuidado no com fogão, para não ficar nada na beirada, porque você não pode bobear nem um minuto com criança.”

As quedas são também os principais motivos de internação de crianças por acidentes (56%), seguida por riscos acidentais à respiração (15%) e choques (13%), segundo dados do Datasus, plataforma aberta do Ministério da Saúde que disponibiliza dados mapeados pela pasta, dos últimos dois anos.

No caso de crianças que já andam, as quedas são parte do processo de aprendizagem e desenvolvimento das habilidades motoras. Embora pareça paradoxal, a melhor maneira de prevenir quedas é estimulá-las a brincar.

“Cair de vez em quando faz parte, mas se focarmos nessa pequena parte ruim a gente cria uma geração mais sedentária. Quanto mais eles brincam, mais eles desenvolvem a coordenação motora e menos eles caem”, explica a pediatra Denise Lellis, especialista da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Mas não são só os netos que precisam de uma atenção redobrada. Em todo o Brasil, mais de 120 mil idosos foram internados pelo SUS entre setembro de 2017 e agosto deste ano. No entanto, não se deve impedir que eles subam escadas ou façam outras atividades consideradas “perigosas”.

“A escada é um vilão muito grande, mas os idosos que as usam frequentemente caem menos que aqueles que evitam ou usam esporadicamente. Embora o ideal seja uma casa térrea, é essencial que os mais jovens os incentivem a subir e a descer, sempre acompanhados, para que eles peguem confiança”, acrescenta Otani. A mesma lógica serve para crianças: proibir nem sempre é a melhor prevenção.

Para o pediatra Felipe Lora, do Hospital Infantil Sabará, as crianças são naturalmente curiosas e têm muita energia. Além de ficar sempre de olho, é importante educar e explicar os motivos. “A gente não pode criar a criança dentro de uma bolha.”

ADAPTAÇÃO PARA CONTINUAR NA ATIVA

Depois de um acidente doméstico, muitas pessoas podem se sentir acanhadas em fazer tarefas consideradas perigosas. A inatividade, porém, pode levar à atrofia muscular. “Dessa forma, a tendência é que ocorram cada vez mais acidentes. Você não está protegendo, mas as expondo a um fator de risco maior”, explica o ortopedista Marco Paulo Otani.

A recomendação é adaptar a casa e mudar alguns hábitos. A aposentada Niobe Amaral Souza Marengo, 87, sofreu um acidente doméstico quando tinha 62. “Tínhamos encerado a sala de almoço e ela estava com um pouco de cera ainda. Eu escorreguei e caí, bati o rosto na mesa, foi um tombo bastante dolorido”, afirma Niobe, que precisou colocar placa metálica na fratura do osso da face.

O acidente a fez mudar algumas coisas na casa, a começar pela limpeza do chão: nada de encerar nem colocar tapetes. “Tenho uma disposição muito grande, mas fiquei mais atenta. No meu quarto, passei a deixar uma luz acesa. Eu tinha mania de andar no escuro e hoje sei que isso pode ser perigoso.”

Outra dica de segurança, indica Otani, é manter os exames em dia e se exercitar. Idosos perdem massa muscular e, também, são mais afetados pela osteoporose. “Os exames oftalmológicos são importantes porque os problemas com a vista podem acarretar sérios acidentes.”

Uma opção saudável e divertida para fugir dos acidentes domésticos é ir a parques e praças. “Para os idosos, a atividade muscular melhora a vascularização do corpo e ajuda a manter a massa muscular”, explica o ortopedista Otani.

As crianças também se beneficiam em muitos aspectos. “Criança que sai de casa e gasta energia tem um comportamento mais tranquilo. A recomendação é as crianças praticarem ao menos uma hora de atividade física intensa por dia, a partir dos dois anos”, afirma a pediatra Denise Lellis.

Esse, inclusive, é um dos passatempos favoritos de Maria Luiza, de sete anos. “Ela ama brincar de patins. Vamos sempre na praça e no calor vamos à piscina, na quadra, no parquinho, para ela gastar energia. Em casa, as brincadeiras são mais tranquilas”, diz a avó, Lourdes Foschini.

A brincadeira ao ar livre é também uma possibilidade de captar vitamina D, o que acontece naturalmente quando somos expostos ao sol. No verão, é importante ir antes das 10h ou depois das 16h.

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