fonte: Folha de SP

Quem tem mais de 30 anos certamente se lembra de um simpático boneco que começou a aparecer nas campanhas de vacinação do Brasil no final da década de 1980. Zé Gotinha foi criado pelo artista plástico Darlan Rosa, 73, a pedido do Ministério da Saúde e com apoio do Unicef (braço da ONU para infância) para reduzir a resistência da população a imunizações.

Funcionou. O personagem-símbolo do compromisso assumido pelo Brasil de erradicar a poliomielite até 1990 diminuiu o medo das crianças, inspirou a confiança dos pais e ajudou a elevar as taxas de vacinação.

Hoje, 36 anos depois, o personagem volta e meia aparece nas redes sociais do ministério, mas seu papel parece reduzido. Não é só isso que mudou: se antes o governo pensava em diferentes formas de aumentar a adesão à imunização e presidentes da República circulavam ao lado do Zé Gotinha em campanhas nacionais, hoje é o próprio governo federal que levanta dúvidas sobre a segurança de vacinas que estão sendo desenvolvidas contra o coronavírus.

“O Zé Gotinha tinha a emoção. Falta isso na comunicação da saúde hoje, tocar no coração, cativar as pessoas. As peças produzidas de conteúdo falso na internet conseguem seguidores porque falam aquilo que preocupa as pessoas. Precisamos recuperar a empatia das pessoas pelo Zé Gotinha”, afirma Isabella Ballalai, pediatra e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim).

A médica diz que ouve de muitos colegas que o ministério não faz mais campanhas com o personagem. “Eu me canso de ouvir que o ministério parou de fazer campanha. O ministério faz campanha todo ano, mas quem está vendo? Qual foi a empatia dessa campanha agora? A última teve adesão de 40% e precisou ser prorrogada em diversos estados. A comunicação está errada.”

Renato Kfouri, pediatra e infectologista, conta que quem era médico pediatra ou infectologista nos anos 1980 e 1990 se lembra do impacto que teve o Zé Gotinha na adesão às campanhas de vacinação e no aumento da cobertura vacinal. “Até hoje em eventos científicos os médicos mais antigos se emocionam quando o Zé Gotinha está presente. Ele continua sendo um personagem do imaginário coletivo.”

O sucesso da campanha foi, em parte, pelo fato de a via de administração ser oral. A associação de um simpático personagem com uma vacina que não doía trazia conforto. Seu nome foi escolhido em concurso popular, mais um símbolo da conexão do Ministério da Saúde com a população.

A vacina formulada com o vírus da pólio atenuado protegia contra dois tipos do patógeno selvagem das três formas conhecidas. Hoje, a imunização é feita com uma dose aos dois meses de idade, da forma trivalente (feita com vírus inativado), e depois duas doses aos 15 meses e aos quatro anos com a vacina oral, bivalente.

A forma selvagem da poliomielite foi erradicada no Brasil em 1989, embora alguns casos tenham ainda surgido ao longo da década de 1990, segundo o pediatra e professor associado da Faculdade de Medicina da USP Gabriel Oselka.

“É interessante ver como mesmo em peças de campanhas de vacinas que são aplicadas via intramuscular [como é a tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba] o ministério usa a ‘gotinha’”, diz Kfouri.

A ação publicitária com o Zé Gotinha também levou à criação dos dias “D” de campanha de vacinação contra a polioemielite existentes até hoje, com a presença do ilustre convidado.

Oselka lembra ainda que o Programa Nacional de Imunizações (PNI) é o maior e melhor instrumento de saúde pública do mundo.

“Eu atendia na enfermaria crianças com sarampo ou com sequelas de sarampo, de poliomielite, e me lembro como era terrível. O sucesso da grande diminuição das doenças, que são infecciosas e causadas por vírus, foram as vacinas”, diz. “O PNI é o programa de maior sucesso do Ministério da Saúde porque ele se mantém, desde as quatro décadas de sua criação, com uma qualidade muito elevada.”

O Zé Gotinha já teve outros momentos de baixa. Darlan Rosa afirmou à Folha em 2018 que, quando criou o personagem, houve resistência por parte do ministério por “tratar uma coisa tão séria com fantasia”. Uma campanha em que ele aparece dançando ao lado de um carro em movimento e reproduções de gosto duvidoso do personagem pelo país afora também ciscaram a imagem do garoto-propaganda.

Para Ballalai, a baixa adesão às campanhas e a queda na cobertura vacinal são reflexo de uma falsa sensação de segurança, uma vez que as principais doenças foram praticamente eliminadas com as vacinas no passado, e da dificuldade de acesso.

“Dizer que o brasileiro não acredita em vacina é falso. O brasileiro não só acredita em vacina como ele quer vacina. Em 2016, quando houve um surto de H1N1, tinha fila de cinco horas em clínicas particulares de vacina contra influenza. O problema é que as vacinas de rotina não têm o apelo do perigo”, diz Ballalai.

Para ela, o governo deveria promover mais campanhas na televisão, que é ainda a maior fonte de informação para a maioria dos brasileiros. O baixo investimento em conteúdo publicitário e a descentralização das campanhas de vacinação —cada município organiza o seu próprio calendário de vacinação— tornam essa comunicação mais difícil.

Já Kfouri acredita que uma forte presença nas redes sociais, onde estão hoje os pais que mais precisam de informação sobre vacinação e também onde atuam mais fortemente os movimentos antivacina, teria um efeito melhor.

“Se o governo não atuar nas redes, alguém vai atuar. O espaço fica livre para ser ocupado, seja por fontes confiáveis ou por oportunistas.”

A queda na cobertura vacinal pode trazer doenças antes controladas à tona. Em 2019, a cobertura vacinal nacional da poliomielite foi de 95%, mas a homogeneidade —isto é, quanto cada estado ou município conseguiu cobrir de seu território com a vacina— era só de 21%.

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