fonte: Folha de SP

Mesmo com o avanço da conscientização sobre doenças que afetam as células do sangue, os transplantes de medula óssea ainda se concentram nas regiões Sudeste e Sul.

Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2019, foram registrados 3.490 transplantes de medula óssea no país, sendo 2.136 no Sudeste, 670 no Sul, 508 no Nordeste, 176 no Centro-Oeste e nenhum na região Norte.

De acordo com o Redome (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea), o Brasil tem hoje mais de 3,7 milhões de doadores de medula óssea inscritos. Em 2000, havia apenas 12 mil.

O alerta sobre a importância de haver mais registros de transplantes no Brasil e acreditação internacional (espécie de certificação) para transplantes de medula óssea foi feito por especialistas participantes da sétima edição do Congresso Digital Todos Juntos Contra o Câncer, realizado virtualmente.

“Temos no Brasil 87 centros de transplantes autorizados. A maioria está no Sudeste, principalmente, em São Paulo, com 38 desses centros”, afirma Nelson Hamerschlak, coordenador da hematologia do Hospital Israelita Albert Einstein.

De acordo com dados da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos), embora São Paulo realize o maior número de transplantes de medula óssea, o Distrito Federal concentra no país o maior número de indicação de transplantes por milhão de habitantes.

Na avaliação de Hamerschlak, mesmo com o crescimento anual de transplantes reportados, o Brasil ainda não tem um número adequado de cirurgias para cada 10 milhões de habitantes e, neste ano, por conta da Covid-19, haverá uma diminuição no número.

“A Argentina, países da Europa e os Estados Unidos têm mais de 100 transplantes por mais de 10 milhões de habitantes”, afirma.

O transplante de medula óssea, tecido que ocupa o interior dos ossos e é responsável pela produção de componentes do sangue, como hemácias, leucócitos e plaquetas, é indicado para tratamentos de doenças que afetam células do sangue, como leucemias, linfomas, mielodisplasias, mielomas e tumores sólidos. A maioria dos transplantes realizados no Brasil se dá em mielomas múltiplos seguidos de leucemias agudas.

Para Hamerschlak, a escolha do doador adequado, com a experiência de cada centro de transplante autorizado, ajuda a reduzir complicações associadas ao transplante de medula, principalmente, infecções decorrentes de quimioterapia e das fontes das células.

Existem quatro tipos de doadores de medula óssea: autólogo (quando o próprio paciente é o doador), alogênico aparentado (quando a doação é feita por um parente), alogênico não-aparentado (quando a doação não é realizada por parentes) e haploidêntico (quando há 50% de compatibilidade genética do doador com um paciente).

Em São Paulo, 50% dos transplantes de medula óssea realizados são autólogos e 50%, alogênicos.

Hamerschlak ressalta que hoje há menos impeditivos para a realização de transplantes de doadores com 50% de compatibilidade genética com o paciente, que têm crescido no país e são mais encontrados em bancos de registros.

“Hoje é praticamente impossível não ter doador para transplante, porque, se ele não tem um irmão absolutamente idêntico, ele tem o registro [de doadores]. Se não tem no registro, ele tem o cordão umbilical. Se não tem o cordão, ele tem algum parente que é 50% [compatível]”, explica.

No Brasil, a minoria dos transplantes são realizados em crianças.

Juliana Folloni, médica do Hospital Israelita Albert Einstein, lista que entre as doenças pediátricas que podem ser tratadas com transplantes estão os casos mais graves de anemia falciforme, doença genética mais comum no Brasil, imunodeficiências primárias (alterações genéticas no sistema imunológico), doenças metabólicas e a imunodeficiência combinada grave, chamada antigamente de “bebê da bolha”, que não podia ter contato com o ambiente exterior porque tinha infecções graves.

“O paciente pediátrico normalmente tem uma maior tolerância à quimioterapia, tem uma diferença na incidência das complicações do transplante”, ressalta.

Folloni afirma que algumas crianças submetidas ao transplante, principalmente, por leucemia e que usam radioterapia em altas doses, podem apresentar a longo prazo déficit de crescimento e cognitivo. No entanto, a médica ressalta que o transplante funciona em muitas doenças na faixa etária pediátrica e o encaminhamento médico cedo nestas doenças é a parte mais importante para o resultado.

“Nas leucemias, a maioria das crianças são tratadas somente com quimioterapia, com sucesso, não precisando do transplante. Somente casos mais graves ou que não responderam à terapia inicial são encaminhados para o transplante”, afirma.

Com o envelhecimento da população, os transplantes de medula óssea para pessoas acima de 70 anos têm aumentado. Polianna Mara Rodrigues de Souza, médica do Hospital Israelita Albert Einstein, ressalta que o envelhecimento está relacionado ao aumento de doenças crônico-degenerativas, entre elas o câncer.

“Mais de 60% dos casos de câncer são diagnosticados em pessoas com mais de 60 anos e 70% das mortes também ocorrem nesta faixa etária”, afirma.

De acordo com a médica, a população idosa tem uma chance maior de ter inúmeras doenças ao mesmo tempo (comorbidades) e com isso usar diversas medicações que podem interferir em riscos nos tratamentos.

Os fatores críticos nesta faixa etária são, antes do transplante de medula, ter tido queda nos últimos seis meses, sarcopenia (perda de massa muscular), comprometimento de atividades que permitem independência e vida social fora de casa, e redução da velocidade de caminhada.

Morgani Rodrigues, médica assistente do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, ressalta que o cuidado após o transplante é fundamental para o sucesso do procedimento.

As complicações mais comuns nesta fase são as infecções e a presença da doença do enxerto contra o hospedeiro, que é quando as células do doador reconhecem a pessoa que a recebeu como estranha. Os reflexos são sentidos na pele e no trato gastrointestinal. Morgani afirma que a saúde óssea e sexual também devem ser acompanhadas por equipe médica multidisciplinar após o transplante.

O cuidado mental também é importante no tratamento, lembra Maria Ester Azevedo Massola, que coordena a equipe de Medicina Integrativa do Hospital Israelita Albert Einstein. Ela trabalha com terapias não-convencionais e não-farmacológicas para proporcionar uma experiência de cuidado ao paciente.

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