fonte: Folha de SP

Um terço das crianças e adolescentes brasileiros de 11 a 17 anos afirma já ter procurado apoio emocional na internet. O hábito é mais comum para as meninas: 36% delas já recorreram à ajuda online, enquanto, no caso dos meninos, foram 29%.

Essa não é uma notícia nem boa nem má, mas atesta a importância de as famílias e os educadores estarem atentos a esse tipo de busca, explica Luísa Adib, coordenadora da pesquisa TIC Kids Online Brasil, referência na análise do comportamento digital na infância e na adolescência, divulgada nesta terça (16).

Para se investigar a procura por apoio emocional online, foi selecionada a faixa etária dos 11 aos 17 anos, com a seguinte pergunta: “Já usou a internet para procurar ajuda quando aconteceu algo ruim com você ou para conversar sobre suas emoções quando se sentiu triste?”

Dentre os 32% que responderam “sim”, pode haver tanto os que seguiram um caminho seguro e, de fato, conseguiram apoio, quanto aqueles que acabaram entrando em contato com pessoas ou grupos que, em vez de ajudar, complicaram ainda mais as suas dificuldades emocionais.

Diante dos prejuízos causados a crianças e adolescentes pela pandemia e pelo fechamento prolongado das escolas nesse período, o tema da saúde mental foi pela primeira vez incluído na TIC Kids Online Brasil –TIC é a sigla de Tecnologia de Informação e Comunicação. “Nossa pesquisa tem o objetivo de olhar para o uso da internet na infância e na adolescência a fim de se pensar em estratégias para fomentar o bem-estar das crianças e dos adolescentes”, afirma Adib.

O estudo é feito anualmente, desde 2012 (com exceção de 2020, em razão do confinamento), pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, que reúne representantes governamentais e da sociedade civil para estabelecer as diretrizes do uso da internet no país.

As amostras são nacionais, com base nos dados do IBGE. Nesta edição, foram entrevistados presencialmente, de outubro de 2021 a março de 2022, 2.651 crianças e adolescentes, além de seus pais ou responsáveis. Os resultados serão apresentados e debatidos nesta terça-feira (16) no 7º Simpósio Crianças e Adolescentes na Internet, em São Paulo, com transmissão ao vivo pelo YouTube, no canal do Nic.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR).

O levantamento é uma ferramenta para se mapear riscos da internet para crianças e adolescente e também para se discutir práticas de mediação e controle dos pais e educadores. É ainda uma forma de demonstrar as desigualdades não apenas no acesso à internet como também na maneira como a rede é utilizada. E esse é um dado que chama a atenção na nova edição.

Apesar da pandemia e do ensino a distância, 7% dos brasileiros de 9 a 17 anos ainda não têm acesso à internet. Na classe AB, 100% dos que estão nessa faixa etária a utilizam, na C, 96%, e na CD, o número cai para 86%. A mais baixa taxa de acesso está na região Norte (87%), enquanto no Sul são 98%.

Além disso, na classe CD, 78% das crianças e dos adolescentes acessam a internet apenas do telefone celular, enquanto na AB são 18%, e a maioria se conecta utilizando diferentes dispositivos, como computadores, televisores e videogames.

A pesquisa também dá a dimensão da explosão do uso de internet a partir da pandemia, especialmente dentre as crianças mais novas. O levantamento anterior, de 2019, havia apontado que eram 79% os usuários de internet de 9 e 10 anos. Em 2021, esse número saltou para 92%. A pandemia representou ainda uma ampliação significativa no acesso de crianças e adolescentes do Nordeste, também de 79% em 2019 para 92% em 2021.

Na zona rural, da mesma forma, a conexão aparentemente cresceu nesse período, e os usuários dessa faixa etária subiram de 75% para 90%. “A gente comemora a ampliação do acesso no Brasil, porque estar desconectado hoje é estar à margem da sociedade. Mas é preciso analisar em que condições o acesso se dá e de que maneira as crianças e os adolescentes estão usando a internet”, diz a coordenadora da pesquisa, que é mestre em gestão de políticas públicas.

Na leitura desses resultados, há que se considerar que, quando as entrevistas começaram a ser feitas, em outubro de 2021, boa parte das escolas ainda permanecia com o ensino remoto. “Esta edição traz, naturalmente, o impacto da pandemia nos resultados. Se a ampliação do acesso e os novos hábitos que se deram nesse período vão ou não permanecer, só teremos certeza nas pesquisas dos próximos anos.”

A pandemia fez explodir também o uso das redes sociais. De 68% que as utilizavam em 2019, subiu para 78% em 2021. Da mesma forma cresceu o acesso a games online com contato com outros jogadores (57% para 66%) e até as compras (9% para 19%).

Atualmente, 88% das crianças e dos adolescentes dos 9 aos 17 anos possuem perfil nas redes sociais. Apesar de a maioria das redes permitir oficialmente a inscrição apenas daqueles que têm 13 anos ou mais, os mais novos têm presença maciça. Das crianças de 9 e 10 anos, 68% estão nas redes. Dentre as de 10 e 11 anos, são 86%.

“São dados que reforçam a enorme importância do diálogo e da mediação dos adultos no uso da internet na infância e na adolescência”, finaliza Adib.